A ideia é afastá-las do ciclo de violência e permitir que reestruturem suas vidas, foi o que disseram duas especialistas no Tá na Mesa
Brasil e Rio Grande do Sul enfrentam números alarmantes de violência contra mulheres. Superar esse cenário exige informação, ação e responsabilidade coletiva. Em 2015 foram registrados 449 feminicídios no país e dez anos depois, em 2025, o número triplicou, chegando a 1.568. Em 2024, no Rio Grande do Sul 217 mulheres foram mortas. Em 2025 foram registrados 80 feminicídios e mais de 52 mil ocorrências policiais contra mulheres. 56% dos feminicídios ocorreram em municípios com população inferior a 50 mil habitantes.

Dada a relevância do tema, a FEDERASUL convidou duas especialistas: a promotora de Justiça do Tribunal do Júri de POA e vice-presidente da Associação do Ministério Público, Luciana Cano Casarotto e a presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher, Natália Fetter.
Luciana Cano Casarotto disse que o feminicídio não é um fenômeno isolado, mas o resultado de uma cadeia de violência contra as mulheres e que os crimes não devem ser enfrentados apenas pelo sistema de justiça. “Eles serão reduzidos quando entendermos que a solução está em nossas mãos. Precisamos falar com homens. Criar políticas públicas efetivas com os grupos reflexivos de gênero”, destacou ao explicar que é preciso identificar sinais precoces que podem ser e diferença entre a vida e morte.

A promotora de Justiça acrescentou que a violência doméstica não ocorre somente nas casas. “Ela está nas empresas, nas indústrias e nas instituições todos os dias. O local de trabalho pode ser o último lugar seguro antes do feminicídio”. Acrescentou que ocorre de forma escalonada, começando com um apertão, um tapa, um puxão de cabelo, um soco até chegar ao assassinato. No RS, 60% do feminicídios são de mulheres negras.
Rede de Proteção
Em sua manifestação, a presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher, Natália Fetter, disse que muitas mulheres relutam em denunciar as agressões por terem dificuldade de romper com os agressores e por não entenderem que estão correndo risco de vida. Além disso, a dependência financeira para se manter, sustentar os filhos, também contribui. Diante desse quadro, defendeu a necessidade políticas públicas que criem uma rede de proteção que permita que as mulheres se afastem do ciclo de violência e reestruturem suas vidas. “A organização dos fluxos de proteção às mulheres no RS ainda está em processo embrionário. A rede ainda não salva“, declarou a palestrante.

Acrescentou que no RS a situação se agrava diante de uma cultura machista que sustenta estruturas sociais conservadoras em que a mulher é posse do homem. “Enquanto os homens são ensinados a ocupar espaços de poder, as mulheres de cuidados. São muitas camadas de uma cultura em que a mulher não é considerada tão capaz quanto o homem”, afirmou.
Mobilização
O presidente da FEDERASUL Rodrigo Sousa Costa questionou a eficácia de leis mais severas para punir os criminosos. “Vimos uma grande quantidade de projetos de novas leis e tenho dúvidas se realmente vão reduzir a violência. Acredito que terapias coletivas que afastam os homens de ambientes tóxicos possam promover grandes melhoras”, lembrando que a pena para feminicídio no Brasil aumentou para 20 a 40 anos de prisão, já que o crime deixou de ser apenas um homicídio qualificado e passou a ter um artigo próprio no Código Penal, tornando-se uma das penas mais severas do país.

Rodrigo acrescentou ainda que é importante aproveitar o ano eleitoral para mobilizar a opinião pública e apresentar sugestões que possam contribuir para reverter o crescimento dos feminicídios sugerindo a criação de grupos reflexivos de acolhimento.
A presidente do Conselho da Mulher Empreendedora da FEDERASUL, Simone Leite, que intermediou o debate com o presidente Rodrigo Sousa Costa, disse que disse que as mulheres que sofrem agressões precisam ser acolhidas pelas famílias e sociedade e não merecem julgamento.
